04/05/2012 - Sexta-feira
Recebidos por
William Stainton Moses
Seção V
(No dia seguinte tive uma longa conversa sobre o poder exercido na Terra pelos Espíritos, poder extenso – disseram-nos. Argüindo sobre a natureza desse poder aplicado aos indivíduos, apresentaram-me casos de obsessão absoluta.
Disseram-me que era prudente colocá-lo somente ao alcance dos Espíritos prudentes e íntegros, traçar-lhes regras para exercitá-lo por intermédio deles, a fim de afastar os Espíritos atrasados que obsidiam, ou pelo menos reduzir materialmente a sua capacidade de danificar. Insistiram sobre a universalidade da ação espiritual, benfazeja ou não, conforme o quer o homem, da qual ela depende em longa escala. Perguntei quais eram as melhores condições para receber essa influência, que tendia a espalhar-se muito.)
Há, deveis sabê-lo, variantes de mediunidade e há diversos modos pelos quais se exerce a influência do Espírito.
Certas pessoas são escolhidas unicamente pelas particularidades físicas que fazem delas veículos bem preparados do poder espiritual; a sua organização corpórea é adaptada com o fim de manifestar exteriormente a influência espiritual sob a sua forma mais simples. Não são inspiradas mentalmente, e as informações que fossem dadas pelos Espíritos que delas se servem não mereceriam confiança alguma; são empregados como meios demonstrativos do poder do Espírito, para obedecer ao agente invisível exteriormente capaz de produzir fenômenos objetivos. Essas pessoas vos são conhecidas como os instrumentos através dos quais os fenômenos elementares se manifestam. O trabalho delas não é menos significativo do que o produzido por outros, quando se incumbem da fundação da crença.
Algumas pessoas são escolhidas por causa da natureza meiga e amável que possuem; não são utilizadas em nenhum ato físico, fenomênico; muitas vezes não estão mesmo em comunicação consciente com o mundo espírita, mas recebem a direção espiritual, as suas almas meigas e puras são cultivadas, aperfeiçoadas por cuidados angelicais.
Conseguem, por gradações, receber conscientemente as comunicações das esferas, onde lhes é dado ser bastante clarividentes para perceber alguns aspectos da sua futura morada. Um Espírito amigo e afeiçoado é atraído por elas, que são assim instruídas por impressão e guiadas dia a dia. São as almas ternas envoltas em uma atmosfera de paz, de pureza e amor; vivem no mundo para nele dar um brilhante exemplo e passam em plena madureza às esferas de repouso e de serenidade para as quais a sua vida terrestre as preparou.
Outras ainda são intelectualmente cultivadas e prontas a oferecer ao homem um conhecimento mais lato e as idéias mais amplas para se aproximarem da verdade. Os Espíritos adiantados influenciam sobre seus pensamentos, sugerem idéias, fornecem os meios de adquirir o saber e de comunicá-lo à Humanidade.
Os meios pelos quais os Espíritos exercem a sua influência sobre os homens são tão numerosos quão variados. Por meios ignorados de vós, os acontecimentos são arranjados de maneira a conduzir ao fim que eles têm em vista. A tarefa mais difícil para nós é escolher um médium pelo qual as comunicações de Espíritos elevados possam tornar-se públicas.
O médium deve ter faculdades receptivas, pois não podemos inocular em seu cérebro maior número de informações do que as que pode receber; além disso, ele deve afastar-se de estultos preconceitos mundanos, convindo que tenha retificado os erros da sua mocidade e provado que pode aceitar uma verdade, ainda que seja impopular.
Ainda mais, deve estar livre do dogmatismo teológico e de idéias sectárias preconcebidas; não deve estar sob a influência de noções terrestres, nem permanecer ligado à enganadora ilusão de que ele sabe, pois isso é ser ignorante da sua própria ignorância; deve manter uma alma livre e pesquisadora, que queira saber progressivamente e que tenha a percepção da verdade de além-túmulo, que acredite não se poder deixar de aspirar à verdade.
Enfim, a nossa obra não deve ser desfigurada pela asserção pessoal de um antagonista, ou pelas intenções interesseiras de um louco orgulho; com tais indivíduos só podemos procurar destruir gradualmente o egoísmo e o dogmatismo que os cegam. Desejamos para o nosso trabalho uma inteligência capaz, ardente, pesquisadora e amante da verdade impessoal. Dissemos com acerto que era difícil encontrar uma tal individualidade entre os homens? Isso, na verdade, é quase impossível. Tomamos então o que podemos encontrar de melhor, e por solicitude constante o preparamos para a obra designada; inspiramos-lhe a noção do amor e da tolerância pelas opiniões contrárias às suas próprias disposições mentais. Isso o elevará acima dos preconceitos dogmáticos e o preparará para descobrir que a verdade múltipla e variada não é propriedade de ninguém. Uma grande provisão de saber é dada à alma que pode recebê-la. Uma vez solidamente estabelecido o alicerce, a superestrutura se elevará sem perigo. As opiniões e o tom do pensamento são lentamente formados até que fiquem em harmonia com o fim a que visamos.
Muitos e muitos caem aí e nós os abandonamos, persuadidos de que nesse planeta não podem receber a verdade. Imbuídos de antigos preconceitos, aterrados aos artigos dogmáticos, não podem servir-nos.
As sólidas conseqüências do nosso ensinamento são uma perfeita veracidade unida a uma ausência de temor e de ansiedade. Conduzimos a alma a entregar-se confiante e tranqüila a Deus e aos seus instrutores espirituais e dispomo-la a esperar com paciência o que nos é permitido fazer ensinar. Esse estado de espírito é inteiramente oposto à agitação confusa e lastimosa que manifestam muitos seres. Sobre esse ponto ainda, muitos dentre eles se afastam amedrontados e assaltados de dúvidas. A velha teologia lhes ensinou a conhecer um Deus que espreita a sua queda, um demônio que perpetuamente lhe arma ciladas, e eles então se assustam da novidade do nosso ensino, pois os seus amigos falam do Anticristo. Os antigos alicerces são abalados; as novidades não são edificadas; os adversários penetram e tentam a alma vacilante, que teme, distancia-se e torna-se-nos então inútil. Demais, perseguimos o egoísmo sob todas as suas formas, pois nada há mais completamente fatal à influência espiritual do que a preocupação de si mesmo, da sua própria satisfação, a presunção, a arrogância e o orgulho. A inteligência deve ser subordinada, do contrário não podemos agir; se ela é dogmática, torna-se inutilizável; se é arrogante e egoísta, impede-nos a aproximação.
A abnegação é a virtude que mais ornou os sábios e os santos de todos os tempos. Os videntes que, no longínquo passado, transmitiam a comunicação das verdades progressivas, úteis à sua geração, eram homens que se esqueciam de si mesmos para se devotarem à sua missão.
Aqueles que falavam aos judeus eram homens muito desprendidos de si próprios, puros e sinceros nos atos de sua vida. Jesus deu o magnífico exemplo do mais completo esquecimento de si; viveu entre vós, unicamente devotado, agindo sempre para aliviar, esclarecer e instruir; sacrificou-se até à morte, pela verdade. Ele nos oferece o mais puro modelo que a História cita; a sua existência dá testemunho do que é possível ao homem. Aqueles que depois combateram o erro e espalharam pelo mundo os raios de verdade foram homens de desapego, ardentemente devotados a uma tarefa para a qual sabiam ter sido escolhidos. Sócrates e Platão, João e Paulo, mensageiros da verdade, pregoeiros do progresso, eram almas despidas de egoísmo, desdenhando as vantagens pessoais, não procurando pompas nem grandezas. Possuíam no mais alto grau o ardor e a unidade de intenção, o devotamento à sua missão, o esquecimento de si próprios e dos seus interesses; de outro modo não teriam cumprido a sua tarefa e o egoísmo os teria dominado. A humildade, a sinceridade e o entusiasmo ardente os conduziram.
Eis o caráter que procuramos. É raro, tão raro quão belo. Procura, amigo, o espírito do filantropo amante, tolerante, disposto e pronto a dar o auxílio necessário. Ajuda a abnegação do servidor de Deus, daquele que faz o seu serviço sem procurar recompensa. Para um tal caráter, o santo e nobre trabalho é possível, pois velamos por ele com meticuloso cuidado; os anjos do Pai lhe sorriem e o cercam e protegem contra o mal.
Mas, descreveis um caráter perfeito?
Oh! não. Não tendes nenhuma concepção do que é um Espírito perfeito; nem sequer podeis concebê-lo, do mesmo modo que não sabeis como a alma fiel absorve o ensinamento espiritual e torna-se cada vez mais semelhante ao seu mestre. Não podeis ver, como nós, o crescimento gradual da semente plantada e cuidada por nós à custa de penoso labor. Somente deveis saber que quanto mais a alma progride em virtudes amorosas, mais bela e mais digna de ser amada se torna. O caráter que tentamos incompletamente esboçar, em termos inteligíveis para vós, não é perfeito, mas apenas uma vaga pintura do que ele se tornará. O que chamais perfeito é maculado, ofuscado por faltas percebíveis pela visão espiritual.
Sim, certamente; mas desses só muito poucos podem ser encontrados.
Poucos ou mesmo nenhum, salvo em gérmen. Não procuramos a perfeição; desejamos apenas a sinceridade com o vivo desejo de aperfeiçoamento; enfim, um espírito livre, receptivo, puro e bom; esperai com paciência, porquanto a impaciência é uma falta terrível. Evitai o excesso de pesquisa ansiosa e deixai conosco as coisas que não podeis examinar. Refleti a sós sobre o que vos dizemos.
Suponho que a vida solitária é mais favorável que o turbilhão confuso da cidade.
(Aqui a escrita passou subitamente dos caracteres miúdos e nítidos de Doctor a uma caligrafia de um arcaísmo muito particular, quase indecifrável, e assinado por Prudens.)
O mundo confuso é contrário às coisas da vida espiritual. Os homens absorvem-se no que podem ver, apalpar, acumular e ocultar; esquecem-se de que há uma vida futura da alma; tornam-se tão materiais, tão preocupados com os interesses humanos, que não têm ocasião de tratar daquilo que continuará a existir quando eles desaparecerem. A constante preocupação, aliás, não deixa oportunidade para a contemplação e a alma se enfraquece pela falta de alimento. O corpo fica usado, acabrunhado sob o peso do trabalho e das aflições e a alma se torna quase inacessível.
Finalmente, a atmosfera fica prenhe do conflito das paixões, inimizades, invejas e contendas que nos são hostis. Ao redor da cidade agitada pelas multidões, reunidas em lugares para onde os vícios os atraem, as legiões de Espíritos adversos flutuam, prontos a arrastar à ruína os que são fracos, causando-nos muitas lágrimas e pesares.
A vida de contemplação convém mais para comunicar conosco. Não se trata de suplantar a vida de ação, mas é preciso, de algum modo, combiná-las, e isso pode praticar-se com muita facilidade quando as forças físicas não estão esgotadas por fortes aflições e excessivo labor.
Porém, o desejo deve ser inerente à alma e quando ele existe, nem o sôfrego desassossego nem as tentações mundanas impedem de reconhecer um mundo espiritual e de comunicar com ele. O coração deve estar preparado, porém é-nos mais fácil fazer sentir a nossa presença quando o ambiente é puro e pacífico.
Leia na próxima Edição: Seção VI

Nenhum comentário:
Postar um comentário