terça-feira, 10 de abril de 2012

Discurso de Brizola no Exílio - Encontro de Lisboa

10/04/2012 - Terça-feira, 16:00




...É preciso que se instituam em nosso país, urgentemente, governos com mentalidade sensível a uma realidade como esta.

Continua....



Quanto às populações marginais, num país de oito milhões e meio de quilômetros quadrados (agora que ando aí pelo mundo, estou vendo), pode haver milhões de pessoas vivendo como cogumelos, nos morros ou nos alagados, disputando dois metros quadrados para viver? Isto para mim, até mais que insensibilidade social, dureza, egoísmo, é incapacidade nacional. Este quadro é inaceitável. Aí está o outro grande compromisso do trabalhismo. Ninguém lutará mais do que nós pelo desenvolvimento, mas o nosso desenvolvimento tem essa concepção – é para todos. Desenvolvimento, sim, mas para todos os brasileiros, dentro de uma concepção global. E dirão os senhores: “Sim, e até resolver isto”? é verdade. Não vai ser com cafiaspirina, nem com caridade. Nós temos que avançar. Creio que nós vivemos uma fase confusa, com grande conteúdo de emocionalidade em 1964, mas que despertou consciências, levantou os problemas que as novas gerações até não conhecem muito. Mas tudo isto eles estão recolhendo hoje, podem crer, não mais é que o fruto daquela fase e de outras anteriores. Foi um despertar de problemas.
Hoje, considero que o trabalhismo está em condições de formular propostas à Nação. Inclusive recolhendo as experiências de todo mundo, uma proposta que a sociedade brasileira vai aceitar, dado o equilíbrio e a madureza do seu conteúdo, que estão diretamente ligados à oportunidade de trabalho, à uma justa distribuição de rendas, que estão evidentemente interligados com outra ordem de questões, acho que onde haja uma integração do povo, onde haja aquele
ambiente em que todos juntos se decidam a tirar o carro do atoleiro, eu não tenho dúvidas que encontraremos as soluções. Nenhuma força, nenhuma corrente política pode, em meu modesto modo de entender – e não é nenhuma pretensão do trabalhismo – possivelmente mobilizar com tanta força o conjunto da sociedade brasileira como nós. E em países como o nosso não há desenvolvimento sem mobilização, não há desenvolvimento sem colaboração popular. Do contrário, é elitismo. São os grupos elitistas, os pretensos sábios, os auto-suficientes, tipo Geisel, como vimos nestes quinze anos que se dissolvem, que desaparecem como a Invencível Armada ou como os exércitos de Napoleão na imensidão da Rússia czarista. É o nosso povo organizado, em mil formas, ajudando, colaborando, que construirá o desenvolvimento com suas próprias mãos. Desde associações das mais despretensiosas e modestas que nada têm a ver com a organização de partidos. Não para fazer dessas entidades, dos sindicatos, dos organismos de base da igreja, das associações de bairros, de mil identidades de estudos, de reivindicações ou de desenvolvimento, correias de transmissão dos partidos políticos. Não! Aí seria uma concepção totalitária que não tem o conteúdo democrático de nossa natureza.
Todos esses organismos devem ser fontes de inspiração de um verdadeiro partido do povo. É a fonte donde nós vamos beber orientação. Nós queremos ser um braço político de toda a sociedade auto-organizada, antevejo o nosso Partido presente como uma sombra, solidário e ao lado das instituições populares. Aí, sim, eu creio no desenvolvimento brasileiro e creio que tudo isso é possível. Acho que o nosso partido deve ser um grande instrumento de mobilização de nosso povo.

Continua na próxima Edição:

Nenhum comentário:

Postar um comentário