05/06/2012 - Terça-feira
Noites de
Poesia e de Saudade
Sylvio
Passos
As frias noites de maio e junho são para
nós, rio-branquenses, cheias de beleza, de poesia e de gratas recordações.
Nas lindas
noites de maio, a cidade se enche de pequeninos anjos alados que, com seus
carros de flores, desfilam cantando, entre fogos coloridos. O sino da Matriz
bimbalha festivo, enquanto foguetes, como agulhas douradas, riscam o veludo
negro do céu, bordando-o com as lantejoulas das estrelas... A coroação de Maria
Santíssima é a mais linda exaltação de sua glória!... E, quando a festa se
acaba, regressam os anjinhos: uns de capotinhos sobre as túnicas celestiais...
Outros de bico na boca... e outros, ainda, sonhando, no colo dos pais, que
também vão para casa, como as crianças, felizes, com a alma em festa, cheia
ainda de flores, foguetes e fogos de bengala!...
E, quando os últimos fogos de maio se
apagam, começam, então, as rezas de Santo Antônio, padroeiro dos amores e dos
casamentos felizes, segundo a voz do povo. E o arrabalde da Rua do Quebra, tão
silente e tristonho nas outras quadras do ano, alegra-se, nas noites de rezas,
leilões, fogos e barraquinhas.
Igreja de Santo Antônio - Imagem: Danton Ferreira.
Há muitos
anos, as rezas se realizavam numa pequena capela, erguida ao pé de um alto
cruzeiro de madeira. Ah! Quantas velas votivas ali se queimaram!... Quantos
terços se desfiaram, quantas promessas para o bondoso taumaturgo de Pádua e de
Lisboa!...
O cruzeiro e a velha capelinha já não
mais existem. Ele, depois de muito velho, ruiu, ao peso de tantos anos. Mãos
piedosas juntaram os seus destroços, para que não fossem profanados. E, naquela
mesma praça, onde outrora brilharam tantas fogueiras festivas, acendeu-se a
mais triste das fogueiras de Santo Antônio!... Numa última homenagem ao bondoso
santinho, rolos de fumo subiram aos céus como nuvens de incenso!...
A
velha capelinha também não pôde resistir ao peso da velhice. Demoliram-na e,
hoje, uma igreja nova ali está sendo construída. Suas paredes, ainda
inacabadas, erguem-se como braços que pedem auxílio!... Pedem ao nosso povo que
não as deixe assim por muito tempo, para que não envelheçam, não se transformem
em ruínas, antes de terem podido cumprir sua sagrada missão.
Igreja e Convento de Santo Antônio - Imagem: Luiz Fernando de Oliveira
O bairro de Santo Antônio é um pedaço de
Rio Branco cheio de história e poesia. No coração dos rio-branquenses, que ali
vão, ressoam saudades do passado... A escola de Dona Mariquinha Montes... As
histórias da Calu... A alegria com que Dona Aurora do Zé Claudiano preparava as
suculentas ceias para os leilões... Zé Cavalinho, leiloeiro, apregoando as suas
prendas... Balões coloridos subindo para encontrar as estrelas... Românticos
encontros de amor, ao som de velhos dobrados da Filarmônica “Carlos Gomes”...
Filarmônica Carlos Gomes. Imagem: Danton Ferreira
Santo
Antônio!... Santo Antônio!... Talvez você já esteja cansado de ouvir aquelas
mesmas preces, aqueles mesmos pedidos, aquelas mesmas promessas... Santo
Antônio: as palavras, as orações são iguaizinhas a muitas daquelas que você já
atendeu tantas e tantas vezes. Mas, repare bem, que as carinhas e os
coraçõezinhos que pedem agora são diferentes!... As mocinhas de hoje, como as
suas vovós e as suas mamãezinhas, também têm direito de ser atendidas e de
ganhar aqueles presentinhos que você mandou para elas: uma grinalda de noiva,
um bangalô e um noivo bem bonito!...
Professor Sylvio Passos e Dona Esmeralda. Imagem: Newton Dias Passos
(Matéria cedida por gentileza do Sr. Newton Dias Passos, residente em Brasília-DF, filho do autor desta crônica)




Nenhum comentário:
Postar um comentário