08/06/2012
QUANDO O SILÊNCIO É A MELHOR ALTERNATIVA
Não vi a comentada entrevista da tal xuxa no Fantástico deste domingo, dia 20/05. Mas não pude ignorá-la por muito tempo, pois a primeira notícia que recebi nesta manhã, logo cedo, foi: "- Cê viu que a xuxa foi abusada na infância?"
Fora o surrealismo da revelação, ocorreu-me que aquela, certamente, não
era a notícia que desejava ouvir logo no início da semana. Afinal, como uma
mulher de 50 anos, aparentemente esclarecida, só agora, passado todo esse
tempo, resolve falar sobre algo tão grave? E por que me irritou tanto esta
informação? Parei para refletir sobre o motivo deste sentimento e, confesso,
não foi difícil descobrir.
Esta senhora, lá pelos seus primórdios, vivia no mesmo condomínio do meu
irmão, no Grajaú, Rio de Janeiro. Lembro-me das minhas sobrinhas, ensandecidas,
indo buscar as grotescas sandalinhas cheias de brilhos no apartamento dela, na
esperança de encontrar o Pelé que, vira e mexe, dava as caras por lá.
Desde os seus 20 e poucos anos de idade, ela comanda programas infantis
cuja tônica é erotizar precocemente as crianças, transformando meninas em
arremedos de mulheres sem se preocupar com sua vulgarização.
Os programas que comandou sempre tiveram como mote atropelar o
desenvolvimento infantil em sua exuberância repleta de etapas simbólicas. Pasteurizou
os encantos desta fase empenhando-se em exaltar a diferença entre possuir e não
possuir os produtos que anunciava ou que levavam sua grife tais como sandálias,
roupas, maiôs, lingeries, xampus, bonecas, chicletes, cosméticos, álbum de
figurinhas, cadernos, agendas, computadores, sopas, iogurtes, etc., num
universo insano onde ela, eternamente fantasiada de insinuante ninfeta, faz
biquinho e comanda a miúda plebe ignara.
Cientes estamos todos de que esta senhora, durante muitos e muitos anos,
defendeu zelosamente seu polpudo patrimônio utilizando-se da fachada de menina
meio abobada que sequer sabia quantos milhões possuía. Costumava dizer que era
a sua empresária que administrava suas posses cujo montante alegava,
candidamente, desconhecer. Pobre menina rica. E burra, com certeza. Como se
fosse possível alguém tão tapada tornar-se tão rica.
Talvez para esconder a consciência que tinha acerca do quanto ajudou a
devastar a inocência de tantas gerações de meninas que lhe devotavam a mais
pura idolatria, posou de inocente útil usando a mesma máscara que agora reedita
para falar, emocionada, do seu mais novo pretenso drama/marketing.
Esqueceu-se que sua audiência, formada, na sua massacrante maioria, por
meninas, passou a ser considerada como alvo da desumana propaganda colocando-as
como mero veículo de consumo.
Esqueceu-se, convenientemente, de comentar que milhares de garotas pelo
Brasil afora foram abusadas sexualmente ao mesmo tempo em que eram, por ela,
adestradas a vestirem-se e comportarem-se como verdadeiras lolitas.
Esqueceu-se de que ensinou atitudes claramente ambivalentes para
crianças que não faziam a mais pálida ideia do que podiam mobilizar em mentes
doentias.
Esqueceu-se de que a erotização tem sido ligada a três dos maiores
problemas de saúde mental de adolescentes e mulheres adultas: desordens
alimentares, baixa autoestima e depressão.
Esqueceu-se também que as crianças, diariamente bombardeadas com imagens
de paquitas como modelos de uma beleza simplesmente inalcançável enquanto
corpos reais, torturavam-se perseguindo um modo de serem belas, perfeitas,
saudáveis e eternas.
Estimulando a sexualidade de forma tão precoce, essas meninas perderam
grande e preciosa fase do seu desenvolvimento natural. E reduzir o período da
inocência, certamente, acarretou-lhes desdobramentos nefastos.
Daí para ideia, cada vez mais presente, da infância como objeto a ser
apreciado, desejado, exaltado, numa espécie de pedofilização generalizada na
sociedade foi, apenas, um pequeno passo.
Num país onde as mães deixam suas crias, por absoluta falta de opção,
frente à tevê sem qualquer tipo de controle e sem condições para discutir o
conteúdo apresentado, encontrou esta senhora terreno mais que propício para
disseminar sua perversa e desmedida ganância por audiência e dinheiro.
Fosse ela uma pessoa minimamente preocupada com a direção que a
sexualidade exacerbada e fora de contexto toma, neste país onde mulheres são
cotidianamente massacradas, teria falado sobre este suposto drama muito tempo
atrás. Teria tido muito mais cuidado com os exemplos de exposição que passava.
Teria norteado seu trabalho dentro de parâmetros muito mais educativos e, desta
forma, contribuído para que milhares de meninas fossem verdadeiramente cuidadas
e respeitadas.
Ou teria simplesmente virado as costas e ido embora.
Logo, frente ao seu histórico, não tem mesmo nenhuma autoridade para
sustentar qualquer atitude fundamentada em belos e necessários méritos.
Porque são de grandes valores, bons princípios e atitude exemplares que
nossa sociedade necessita de maneira URGENTE.
Portanto, CALE-SE, XUXA!
Heloisa Lima
Psicóloga Clínica - Maio de 2012.
Psicóloga Clínica - Maio de 2012.
Pensamento recebido ontem: “”O homem leva dois anos para aprender a
falar... e o resto da vida para aprender a permanecer em silêncio”.”
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