sexta-feira, 16 de março de 2012

Desde a morte do Dr. Antônio, em 2005, Visconde do Rio Branco sente falta de uma liderança alternativa

16/03/2012 - Sexta-feira,

Os quadros políticos dominantes na cidade sentiram-se muito à vontade depois que a fatalidade tirou de cena, prematuramente, a figura do Dr. Antônio Carlos Ignacchiti Gomes, naquele fatídico 1º de Abril de 2005.

Ele havia assumido a liderança do PDT em 1992, nos áureos tempos quando este era um partido sério, sob o comando de Leonel Brizola e a presença de nomes de alta respeitabilidade como Darcy Ribeiro, Jéfferson Perez e Jackson Lago. Havia na Legenda a reverência ao legado trabalhista deixado por Getúlio Vargas, João Goulart, Alberto Pasquallini.



Brizola e Darcy carregavam toda a bagagem de uma história iniciada em 1930 e somavam o empenho da Educação de Primeiro Mundo, com o empenho na implantação da escola de tempo integral, onde os CIEPS tornaram-se referência internacional.

Dr. Antônio, graças à sua profunda sensibilidade social, identificou-se com estes princípios e sonhou implantá-los na realidade de Visconde do Rio Branco, onde imensa parcela da população não tem acesso ao ensino de qualidade, nem no Fundamental, muito menos em Cursos Superiores.  O direito às conquistas trabalhistas fazia parte de seus sonhos para que a força do trabalho oferecesse condições de vida digna aos chefes de família e às donas de casa em suas necessidades básicas de  moradia, alimentação, educação, saúde, lazer,  vestuário, higiene, transporte e previdência social, de maneira concreta.

Para ele não bastava a Constituição Federal estabelecer esses direitos, se os próprios governantes negam aos trabalhadores, inclusive aos funcionários públicos, remuneração capaz de cobrir essas despesas.  Sabia que a maioria dos vencimentos e salários, no serviço público e na iniciativa privada mal cobre a quarta parte dessas necessidades.

Pensava medidas compensatórias para a massa mal remunerada ter acesso aos bens de primeira necessidade. Foi assim que idealizou os restaurantes populares, com a refeição a R$ 1,00. Dava de si o que podia. Como médico, atendia no consultório a quem podia e a quem não podia pagar a consulta.  E, nos Postos de Saúde, dava consulta enquanto houvesse fila, independente de haver ficha.

Pensava em uma forma de habitação popular que oferecesse casas mais espaçosas, dentro de um padrão médio, em lugares melhores e mais seguros, próximos do local de trabalho, sempre que possível, e nos lugares onde houvesse linha de ônibus.  Achava que os altos de morro e as beiras de rio eram locais inadequados, de sacrifício e de risco para a população de baixa renda.

Concorreu pela primeira vez a um mandato eletivo em 1992, a prefeito. Contou somente com seus correligionários em uma coligação com o PT, que ainda mantinha posturas compatíveis com suas origens.  Posicionou-se longe e em oposição aos grupos econômicos - que não se preocupavam com sua candidatura.  Surpreendeu: conquistou 20% de votos espontâneos com pouca propaganda e sem os costumeiros transportes de eleitores e os ‘currais eleitorais’. 

Assustou os grupos dominantes.  Passou a ser referência e alvo do desejo de mudança.  Na sua pureza de coração, faltou-lhe malícia política.  A sua aceitação era crescente. Os mesmos que desdenharam de sua candidatura usaram ardis para anulá-lo como referência na eleição seguinte: 1996.  Infiltraram elementos comprometidos na sua militância, e convenceram-no a aceitar uma posição de vice de uma das correntes dominantes.  Como sempre, vice não tem voto. E deixa de ser referência.

Dr. Antônio, no pouco tempo que conviveu com aquela corrente que o cooptou, ouviu e viu coisas que quase o fizeram renunciar.  Mas seu caráter impediu de deixar o barco no meio da jornada.  Uma das expressões que o abalaram ditas por seus ‘parceiros’: “pobre não pode estudar”.  

Talvez para sua sorte, aquela corrente não teve êxito naquela eleição. A derrota contribuiu para o grupo revelar a sua deslealdade, ao atribuir aos aliados o motivo do fracasso.  “Vocês não nos ajudaram em nada”.  E o referencial dos 20% da eleição de 1992, viraram pó.  Teve de começar tudo de zero.

Mesmo assim, foi persistente o Dr. Antônio. Participava de todas as eleições do jeito que pudesse: vereador, deputado estadual, deputado estadual.  Mas faltava-lhe estrutura maior.  Vereador, sem cabeça de chapa, e um grupo pequeno de correligionários candidatos, não alcançava legenda.  Como deputado, tinha a maior votação no Município diante de todo o poder econômico. Mas em um estado do tamanho de Minas Gerais, os votos de uma cidade, na época girando em torno de 20 mil eleitores, dão, no máximo, uma suplência muito distante dos eleitos no partido.  De qualquer maneira, marcava posição e conquistava espaço. 

Nas eleições de 2000 e 2002, como candidato a deputado, voltava a assustar.  Sua votação, sempre espontânea, batia os concorrentes apoiados pelos grupos dominantes.

Em 2004, voltou a concorrer para Prefeito, sem fazer coligação.  A campanha teve momentos empolgantes. Seu nome era aceito em todas as camadas sociais e tinha nuances de vitória, ou empate com o mais votado, até a semana anterior ao pleito.  Só que, exatamente naquela semana de véspera, houve a primeira e maior demonstração do que veio a ser denominado posteriormente de Mensalão.  Foi um derrame imenso de dinheiro em campanha de outra corrente, com compra de voto de todas as formas imagináveis.

Dr. Antônio fez uma representação à Justiça Eleitoral e cunhou a expressão: “foi um derrame de dinheiro, material de campanha, bonés, camisetas e tudo que se pode imaginar, uma corrupção como nunca antes vista”.

Em muita gente a consciência doeu depois das eleições, alguns contando que candidato houve que ia às vendas e aos armazéns para saber do “fiado” que existia.  E pagava toda conta, a troco do voto de fregueses. O Promotor Público pediu ao Partido para apresentar as provas. O Juiz Eleitoral deu prazo de cinco dias.  Mas todos que falavam das fraudes se negavam a testemunhar.  Já era o fim de 2004. Uma frase sua dessa época, para os companheiros abatidos: “É melhor perder com dignidade!”

Dr. Antônio iniciava a próxima campanha para 2008,tendo a de 2006 como balão de ensaio. 

Começava o ano de 2005. Ele contava aos correligionários que estava recebendo propostas para trabalhar em Ubá, ou outra cidade, com vencimento diferenciado, para durar no mínimo quatro anos. Ele interpretava essas propostas como forma de tirá-lo das eleições de 2006.  E se negava a aceitar as tentadoras propostas.

Estava passando do tempo de trocar seu marca-passo. Seu coração cobrava cuidados.  Até que resolveu renovar suas forças no INCOR de São Paulo nos últimos dias do mês de março.  Com coragem, submeteu-se à operação.

Em março havia sido editado o primeiro número impresso do Consciência da Mata. Na véspera da operação, ele me perguntou:

-  Franklin, quando sai o segundo número do jornal?

Ele não viu o segundo número....
 
Em 2006, a legenda recebeu 7.000 votos. Foi o seu legado.

Este vazio ninguém preenche.




(Franklin Netto – franklin_netto@hotmail.com)

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